É noite. E o quarto estava escuro, não verei luz escapar por baixo da porta.
Entrei. Abriu-se. Uma vela, somente a luz de uma vela pela metade, ele, uma mesa.
A mesa... sustentava uma chaleira vermelha, arredondada, grande. Estava frio e a chaleira rubra respirava e fazia fumacinhas pela boca. Será que ela brincava? Eu bricava, toda vez que saía manhã a dentro, 2 GRADOS abaixo de zero. Fumacinhas dançantes pela boca e pelo nariz.
Ao lado da chaleira, a cuia. Prata, pequenina mas não o bastante para sumir frente a chaleira. Tinha erva fina e água até a boca. Também ela soltava fumacinha. Deveria estar quente. Meu corpo estava frio... ... senti o gosto de outrora, da nova infância, do pampa gaudério.
A vela logo ali e então, a máquia de escrever que sucumbia aos dedos dele: amigo. Camisa azul... Ele não estava com frio? barba grande... escrevia seu romance. E seus pensamentos pareciam tão afoitos que lhe escapavam pela boca, no seu idioma silhuetoso, vacilante, quase como várias curvas cruzantes de um compasso a girar.
Mirei seu pescoço. Onde estaria ele agora? este meu amigo que olhava para mim como uma irmã? PORQUE? O que foi feito dele, por onde passou aquele cabelo, e aquelas células, o que as modificaram? O que as mataram, o que as fizeram crescer? Por que tipo de ventos sua tez foi cortada? Onde dorme, meu carinhoso e livre amigo? Será que o tempo, essa ave que um dia flecharei, que tipo de marcas fez nessa face amiga, com suas garras?
Olho para o branco da mesa. Espaço vazio. A luz... como comunicá-la... Era a luz em que Beethoven, nas noites frias, escreveu a nona, no auge da sua agonia surda e gélida. O penumbra e a vela. Essa luz exatamente! Eu quase podia ver os pulsos de Mozart com as mangas de babado branco, atravessando a noite cavalgando melodias.
Olho para o lado e ouço..sim, a sinfonia! é da minha cabeça ou algum vizinho escutava?...
Meus olhos se inundam. sinto saudade da chaleira, do mate, do amigo. Temo por ele. QUero todo esse espaço gravado na minha alma. Sinto saudade.
A mesa, a chaleira, o mate e o amigo estão aqui. Sinto saudade do presente que vejo. Meu corpo co-habita com eles. Minha alma está em um não-lugar. Os vejo e me vejo décadas depois... Porque peguei carona nas asas do tempo, nesse segundo de contemplação
Ao meu amigo... deste não lugar em que estou e e um dia encontrará meu corpo que aqui estava... digo que o vejo como uma bandeira que tremula. O chamo liberdade.
sábado, 26 de junho de 2010
segunda-feira, 21 de junho de 2010
O SONHO
Meus olhos se abriram fechados. De minha cama.
Levantei-tarei-to... Pisava eu em ondas? Circulava em meu corpo o álcool que bambaleava e cambaleava meus pés em uma dança frenética?
Ruído. Música... Rock and Roll assusta-dor!
O guarda roupa dançava...bem como o corredor, por qual andava em curiosa dificuldade, e me esmagava pelas laterais e pelos cantos.
ESCADA-RIA... descida a passos falhos...
AMUSICA RUÍDO AUMENTAVA e não pedia licença a meus sentidos.
Até que... fim da escada, começo da sala e... O HORROR. Pisava o teto! Tudo estava invertido, ao avesso, de cabeça para baixo... o sofá...a tv, a mesa... A tv caiu no chão-teto em que estava...
PLAFT..FINN..RSIUTCHUO. atrás de mim, como eu...Patrícia, fefa, Jessy encolhidinhas tentando inutilmente mudar o canal distorcido..
Elas tremiam em convulsão... Eu tremia em terremoto. Olho a frente e um velho, gordo, camisa branca manchada aberta, com um cigarro na boca e forte cheiro de rum. Minha boca abre:
- QUEM ÉS TU?
- EU moro aqui.
- Nao!
- O ÁS nunca pertenceu ao baralho. Jogar é Agora com j e menos um A. O ÁS não existe, a espada é um delírio. CERVEJA!
panico me assaltou quando uma figura esguia pulava incessantemente na porta de entrada....
ROSTO TORTO, MORTO, VÍTREO.
Grito e abro a janela... Corpo nu que pende da grade...pende na diagonal de costas. Grito de Horror que sai dos poros do corpo suspenso pelos riscos férreos.
Minha boca abre de novo:
EU NÃO SOU KAFKA! Não sou Kafka! Sou Kafka! Kafka!... FKA...FICA..nao ficar!
Meus olhos se abrem pra se fechar de olhos fechados mas abertos. Convulsão. coração que bate.
ABRO OS OLHOS.
acaba pra começar.
Levantei-tarei-to... Pisava eu em ondas? Circulava em meu corpo o álcool que bambaleava e cambaleava meus pés em uma dança frenética?
Ruído. Música... Rock and Roll assusta-dor!
O guarda roupa dançava...bem como o corredor, por qual andava em curiosa dificuldade, e me esmagava pelas laterais e pelos cantos.
ESCADA-RIA... descida a passos falhos...
AMUSICA RUÍDO AUMENTAVA e não pedia licença a meus sentidos.
Até que... fim da escada, começo da sala e... O HORROR. Pisava o teto! Tudo estava invertido, ao avesso, de cabeça para baixo... o sofá...a tv, a mesa... A tv caiu no chão-teto em que estava...
PLAFT..FINN..RSIUTCHUO. atrás de mim, como eu...Patrícia, fefa, Jessy encolhidinhas tentando inutilmente mudar o canal distorcido..
Elas tremiam em convulsão... Eu tremia em terremoto. Olho a frente e um velho, gordo, camisa branca manchada aberta, com um cigarro na boca e forte cheiro de rum. Minha boca abre:
- QUEM ÉS TU?
- EU moro aqui.
- Nao!
- O ÁS nunca pertenceu ao baralho. Jogar é Agora com j e menos um A. O ÁS não existe, a espada é um delírio. CERVEJA!
panico me assaltou quando uma figura esguia pulava incessantemente na porta de entrada....
ROSTO TORTO, MORTO, VÍTREO.
Grito e abro a janela... Corpo nu que pende da grade...pende na diagonal de costas. Grito de Horror que sai dos poros do corpo suspenso pelos riscos férreos.
Minha boca abre de novo:
EU NÃO SOU KAFKA! Não sou Kafka! Sou Kafka! Kafka!... FKA...FICA..nao ficar!
Meus olhos se abrem pra se fechar de olhos fechados mas abertos. Convulsão. coração que bate.
ABRO OS OLHOS.
acaba pra começar.
sexta-feira, 4 de junho de 2010
PEQUENO DEVANEIO DADÁ
Na ralidade a coisa se passa de maneira bstante sólidada, no sentido de que tudo é relativo.
Não há gente no sertão...Quem canta seus males espanta...Então tudo é bastante. Que de tão relativo passa a ser um tanto quanto mediada pelas aproximações.
Foram 35 entradas, na realidade.
Não há gente no sertão...Quem canta seus males espanta...Então tudo é bastante. Que de tão relativo passa a ser um tanto quanto mediada pelas aproximações.
Foram 35 entradas, na realidade.
terça-feira, 11 de maio de 2010
GRITO, EU.
CENA I: O desespero .
Pt. Brook disse: no teatro é possível experimentar a realidade absoluta da extraordinária presença do vazio, em contrate com a confusão estéril de uma cabeça entulhada de pensamentos.
De fato, tememos o vazio. Merda de medo. Uma MERDA, inclusive no sentido teatral, porque o medo me trás boa sorte, sempre foi assim. Quanto mais medo eu tenho da coisa, mais eu acredito nela. Talvez essa eme ê dê ô seja a razão pela qual eu ainda insisto em permanecer no insuportável: a banal idade.
Porque, diga-me, porque se faz teatro? ´´Tu serias mais útil com um pão na mão do que com uma batuta``. COMO? Utilidade... As pessoas não se vêem mais, isso é um absurdo! Não há diálogo, só há uma inútil e manca CONVENÇÃO.
O MUNDO NÃO EXPERIENCIA MAIS. O homem não vê, não toca, não entende a si e ao outro. Entender e experiênciar são a mesma coisa!
Um pão... o meu pão começa com T! Tão! O teatro é uma corda que puxa da lama maquinal do não humano.
CENA II: AHn?
Vivo o teatro e visito a vida. Se não for assim, não finja que é e assuma! Discursos contraditórios, falhos e hipócritas não me interessam. Prefiro o silêncio, que é sincero. Prefiro a ausência que é justa. Se pisares no tablado AJA para ser digno se ser uma coisa do ato: um ator.
Pt. Brook disse: no teatro é possível experimentar a realidade absoluta da extraordinária presença do vazio, em contrate com a confusão estéril de uma cabeça entulhada de pensamentos.
De fato, tememos o vazio. Merda de medo. Uma MERDA, inclusive no sentido teatral, porque o medo me trás boa sorte, sempre foi assim. Quanto mais medo eu tenho da coisa, mais eu acredito nela. Talvez essa eme ê dê ô seja a razão pela qual eu ainda insisto em permanecer no insuportável: a banal idade.
Porque, diga-me, porque se faz teatro? ´´Tu serias mais útil com um pão na mão do que com uma batuta``. COMO? Utilidade... As pessoas não se vêem mais, isso é um absurdo! Não há diálogo, só há uma inútil e manca CONVENÇÃO.
O MUNDO NÃO EXPERIENCIA MAIS. O homem não vê, não toca, não entende a si e ao outro. Entender e experiênciar são a mesma coisa!
Um pão... o meu pão começa com T! Tão! O teatro é uma corda que puxa da lama maquinal do não humano.
CENA II: AHn?
Vivo o teatro e visito a vida. Se não for assim, não finja que é e assuma! Discursos contraditórios, falhos e hipócritas não me interessam. Prefiro o silêncio, que é sincero. Prefiro a ausência que é justa. Se pisares no tablado AJA para ser digno se ser uma coisa do ato: um ator.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
CENA 1:
''Será esse o caminho
Navegar assim, sozinho,
Sem alguém que nos espere no cais?''
...
... Dei-me conta de que sou eu a mulher com o lencinho branco a dizer adeus. A mesma que retorna todos os dias ao mesmo lugar, cumprimentando os cotidianos pescadores, assistindo o regresso dos grandes navios que chegam abarrotados de gente saudosa ... Mas nunca traz aquele que partiu. São navios devoradores, navios que trazem a angústia terrível da ESPERA e da SAUDADE.
CENA 2:
... ... Também dei-me conta que sou o ser alado que parte com seu navio...Ou melhor, Eu sou o busto posto na proa...Que abre os mares, saúda Poseidon, se aventura no infinito, nas ondas que, por vezes, espelham os céu, as estrelas... Mas quando o navio retorna nào encontro os olhos queridos... Há ninguém. Então eu me dou conta de que pertenço ao navio. As mãos que me afagam sao os ventos.
Eles.
''Será esse o caminho
Navegar assim, sozinho,
Sem alguém que nos espere no cais?''
...
... Dei-me conta de que sou eu a mulher com o lencinho branco a dizer adeus. A mesma que retorna todos os dias ao mesmo lugar, cumprimentando os cotidianos pescadores, assistindo o regresso dos grandes navios que chegam abarrotados de gente saudosa ... Mas nunca traz aquele que partiu. São navios devoradores, navios que trazem a angústia terrível da ESPERA e da SAUDADE.
CENA 2:
... ... Também dei-me conta que sou o ser alado que parte com seu navio...Ou melhor, Eu sou o busto posto na proa...Que abre os mares, saúda Poseidon, se aventura no infinito, nas ondas que, por vezes, espelham os céu, as estrelas... Mas quando o navio retorna nào encontro os olhos queridos... Há ninguém. Então eu me dou conta de que pertenço ao navio. As mãos que me afagam sao os ventos.
Eles.
domingo, 4 de abril de 2010
DIGRESSÕES SOBRE O PERTENCIMENTO
O que é brasileiro? Supõe-se, em princípio, que seja referente ao que provém do brasil. Não obstante, no dicionário Priberam da Lingua Portuguesa consta a seguinte definição:
1 Relativo ou pertencente ao Brasil;.
2. Português que residiu no Brasil e que regressou trazendo mais ou menos haveres.
Pois bem, se considerarmos a primeira definição como parâmetro para definir onde começa o teatro brasileiro, pensa-se: a cultura de um país na boca de um estrangeiro permanece enquanto cultura do país de origem? Ou seja, o colonizador português, quando fala da cultura da colônia, o produto ainda pertence à primeira? Obviamente que entre o que o Brasil apresenta dentro de si e o que se vê fora dele, existe espaço para interpretações próprias e, portanto distanciamentos. Contudo, se pensarmos que a caracteristica de SER depende do que a coisa diz de si, do que ela faz e do que dizem dela, inferimos que pertence ao Brasil o que ele faz (sua história fática), o que ele diz dele mesmo (a prática cultural), e o que outros, de fora, interpretam dele. Desta forma, a produção dramática feita pelos portugueses que abarca, de algum modo, algo sobre o Brasil, desde povos nativos, língua, práticas culturais, diz respeito a esse país.
É comum, ao principiarmos o estudo do Teatro Brasileiro, considerarmos a produção de Gil Vicente. Ora, esse foi um grande dramaturgo português, de um certo idealismo romântico, que falou das problemáticas de uma cultura portuguesa que ia se perdendo. Fala do que pertence à Potugal. E o Brasil? Há algo em sua produção que é inerente a nossa cultura? Tudo o que é escrito em língua portuguesa, em certa instância, diz respeito aos falantes da mesma, ou seja, brasileiros e potugueses. É claro que se deve considerar que, no período vicentino, o Galego dava a forma a nossa lingua, ou seja, o português não possuia a atual forma gramática. Contudo, desconsiderar essa produção de origem da língua que falamos não tem sentido, uma vez que seria negar uma parcela das referências da constinutição do que somos hoje.
Curioso é pensar na segunda definição dada pelo dicionário: brasileiro é português que residiu no Brasil e que regressou trazendo mais ou menos haveres. Pederíamos interpretar da forma que é brasileiro o português (ou o que provém de Portugal) que fez parte do Brasil e regressou a sua terra de origem levando coisas sobre o brasil. Isso, de uma certa forma, remete à produção dramática de Pe. José de Anchieta. Ele não tinha pretenções de uma produção dramática, embora admirasse o teatro. Também ele era provieniente de Terras Lusas, não obstante suas peças foram criadas para os nativos desta terra, apresenta a língua tupi e o português e, não há dúvida, de que a obra de Anchieta, apesar de não nascer da voz de alguém com ´´tambor na alma``, fala sobre e diz muito respeito à história e a cultura brasileira. Era a pretenção de um Teatro tímido que se produziu aqui, ou pelo menos para o povo daqui. Obviamente, sem contar o teatro marginal e laico dos colonos e muitas outras práticas esporádicas que almejavam o lugar de onde se vê.
Nos séculos XVII e XVIII já teremos a construção de um edifício teatral, nos moldes clássicos onde eram representados obras européias como Molière. Muitos questionam e até afirmam que esse tipo de prática nada tem a ver com o Brasil, mas é simplesmente a importação de um modelo que não dialoga. Mas o que somos nós, se não um amontoado de coisas injetadas de todos os lugares, uma miscelânia de coisas (muitas) que não nos diziam respeito mas que, a partir do momento que chegavam a nós, foram fagocitadas e trasformadas em uma terceira. Eis o cerne da questão: o teatro brasileiro não é genuíno, mas é dialético. Ele não é o português, não é o índio, é uma terceira coisa que é a primeira e a segunda ao mesmo tempo. E nessa terceira coisa também há espaço para coisas que não são nem a primera nem a segunda. Podemos sim considerar como teatro brasileiro o teatro importado para cá e o que foi produzido aqui, pois o Brasileiro genuíno estará no ENTRE as duas coisas.
´´Brasil, pra mim! Abre a cortina do passado
Tira a mãe preta do cerrado
Bota o rei congo no congado
O brasileiro é do choro
é entusiasmado quando cai no samba
No Amazonas, no araguaia iá
Na baixada Fluminense
Mato Grosso, nas Gerais e no Nordeste,
Pelo prazer de chorar e pelo ´´estamos aí``
Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir
Um crime pra comentar e um samba pra distraír
DEUS LHE PAGUE!
Não fica abafado e é um desacato
As selvas te deram nas noites teus rítmos bárbaros
E os negros trouxeram de noite reservas de pranto
E os brancos falavam de amor nas suas canções
E dessa mistura de vozes nasceu o teu canto``
Sim, brasileiro é a mãe preta, o branco romântico, o Molière no cerrado, os bárbaros tambores, uma fumaça desgraça, um cálice, um teatro de Gil, Anchieta, Gonçalves de Magalhães, teatro do barulho, do proibido dizer, teatro dos atores mudos, das cantilenas alquebradas, drama das paulicéias, teatro do nada, teatro da ostentação, teatro do papel verde e da moeda enferrujada, do pouco, teatro dos becos e das cortes, teatro do grave, do pessimismo, da alegria paleativa, também da alegria sincera, teatro do que foi e não é mais, teatro do que é que já foi um dia, teatro da Maria, do Zé, de Castro, da Pena do Martins, de Plínio, do ontem e o amanhã... É um grande lugar de onde se vê.
1 Relativo ou pertencente ao Brasil;.
2. Português que residiu no Brasil e que regressou trazendo mais ou menos haveres.
Pois bem, se considerarmos a primeira definição como parâmetro para definir onde começa o teatro brasileiro, pensa-se: a cultura de um país na boca de um estrangeiro permanece enquanto cultura do país de origem? Ou seja, o colonizador português, quando fala da cultura da colônia, o produto ainda pertence à primeira? Obviamente que entre o que o Brasil apresenta dentro de si e o que se vê fora dele, existe espaço para interpretações próprias e, portanto distanciamentos. Contudo, se pensarmos que a caracteristica de SER depende do que a coisa diz de si, do que ela faz e do que dizem dela, inferimos que pertence ao Brasil o que ele faz (sua história fática), o que ele diz dele mesmo (a prática cultural), e o que outros, de fora, interpretam dele. Desta forma, a produção dramática feita pelos portugueses que abarca, de algum modo, algo sobre o Brasil, desde povos nativos, língua, práticas culturais, diz respeito a esse país.
É comum, ao principiarmos o estudo do Teatro Brasileiro, considerarmos a produção de Gil Vicente. Ora, esse foi um grande dramaturgo português, de um certo idealismo romântico, que falou das problemáticas de uma cultura portuguesa que ia se perdendo. Fala do que pertence à Potugal. E o Brasil? Há algo em sua produção que é inerente a nossa cultura? Tudo o que é escrito em língua portuguesa, em certa instância, diz respeito aos falantes da mesma, ou seja, brasileiros e potugueses. É claro que se deve considerar que, no período vicentino, o Galego dava a forma a nossa lingua, ou seja, o português não possuia a atual forma gramática. Contudo, desconsiderar essa produção de origem da língua que falamos não tem sentido, uma vez que seria negar uma parcela das referências da constinutição do que somos hoje.
Curioso é pensar na segunda definição dada pelo dicionário: brasileiro é português que residiu no Brasil e que regressou trazendo mais ou menos haveres. Pederíamos interpretar da forma que é brasileiro o português (ou o que provém de Portugal) que fez parte do Brasil e regressou a sua terra de origem levando coisas sobre o brasil. Isso, de uma certa forma, remete à produção dramática de Pe. José de Anchieta. Ele não tinha pretenções de uma produção dramática, embora admirasse o teatro. Também ele era provieniente de Terras Lusas, não obstante suas peças foram criadas para os nativos desta terra, apresenta a língua tupi e o português e, não há dúvida, de que a obra de Anchieta, apesar de não nascer da voz de alguém com ´´tambor na alma``, fala sobre e diz muito respeito à história e a cultura brasileira. Era a pretenção de um Teatro tímido que se produziu aqui, ou pelo menos para o povo daqui. Obviamente, sem contar o teatro marginal e laico dos colonos e muitas outras práticas esporádicas que almejavam o lugar de onde se vê.
Nos séculos XVII e XVIII já teremos a construção de um edifício teatral, nos moldes clássicos onde eram representados obras européias como Molière. Muitos questionam e até afirmam que esse tipo de prática nada tem a ver com o Brasil, mas é simplesmente a importação de um modelo que não dialoga. Mas o que somos nós, se não um amontoado de coisas injetadas de todos os lugares, uma miscelânia de coisas (muitas) que não nos diziam respeito mas que, a partir do momento que chegavam a nós, foram fagocitadas e trasformadas em uma terceira. Eis o cerne da questão: o teatro brasileiro não é genuíno, mas é dialético. Ele não é o português, não é o índio, é uma terceira coisa que é a primeira e a segunda ao mesmo tempo. E nessa terceira coisa também há espaço para coisas que não são nem a primera nem a segunda. Podemos sim considerar como teatro brasileiro o teatro importado para cá e o que foi produzido aqui, pois o Brasileiro genuíno estará no ENTRE as duas coisas.
´´Brasil, pra mim! Abre a cortina do passado
Tira a mãe preta do cerrado
Bota o rei congo no congado
O brasileiro é do choro
é entusiasmado quando cai no samba
No Amazonas, no araguaia iá
Na baixada Fluminense
Mato Grosso, nas Gerais e no Nordeste,
Pelo prazer de chorar e pelo ´´estamos aí``
Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir
Um crime pra comentar e um samba pra distraír
DEUS LHE PAGUE!
Não fica abafado e é um desacato
As selvas te deram nas noites teus rítmos bárbaros
E os negros trouxeram de noite reservas de pranto
E os brancos falavam de amor nas suas canções
E dessa mistura de vozes nasceu o teu canto``
Sim, brasileiro é a mãe preta, o branco romântico, o Molière no cerrado, os bárbaros tambores, uma fumaça desgraça, um cálice, um teatro de Gil, Anchieta, Gonçalves de Magalhães, teatro do barulho, do proibido dizer, teatro dos atores mudos, das cantilenas alquebradas, drama das paulicéias, teatro do nada, teatro da ostentação, teatro do papel verde e da moeda enferrujada, do pouco, teatro dos becos e das cortes, teatro do grave, do pessimismo, da alegria paleativa, também da alegria sincera, teatro do que foi e não é mais, teatro do que é que já foi um dia, teatro da Maria, do Zé, de Castro, da Pena do Martins, de Plínio, do ontem e o amanhã... É um grande lugar de onde se vê.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
FALO
CENA I: pro[ferir]
Tu sabes que às vezes eu acho que quem fala por necessidade, canta? Que se é ela, essa necess[idade] que articula a boca, acaba por esculpir em flor o que se chama palavra. Esculpir em pétala... imagine só! O que acaba por perfurmar os que ouvem...
Eu decidi que só falarei se eu precisar tanto que, se não o fizer, acabarei por me desfazer em pequenas gotas roxas que mancham o tecido dos surdos. Decidi que quero que saia de mim uma melodia não musical, essa a do colóquio. E só nesse tipo de melodia que se escutem minha voz.
Esses sons límpidos, belos e semânticos... Se eles fizerem alguém chorar que seja para fazer brotar uma lágrima que também veio por necessidade. Uma gota que incha de angústia e de desfaz em alívio, lavando a face e colorindo os olhos de rubro! Ai o rubro... Não temo o choro... eu o amo! Assim como amo o sorriso. Ainda acho o sorriso mais agressivo que a lágrima. O sorriso rasga o semblante, esgarça e comprime tudo... mas é sincero. Só vem quando é preciso e, justamente por ser enfático, é tão decisivo. Liberta.
Eu tomei essa decisão.
Porque é necessário.
Porque falta.
Porque é gelado e eu gosto de coisas que refescam... Porque é fofo como uma pelúcia felpudinha... E por todas essas razões que a razão jamais vai apreender... Só quem vai além dela... Também por necessidade.
Tu sabes que às vezes eu acho que quem fala por necessidade, canta? Que se é ela, essa necess[idade] que articula a boca, acaba por esculpir em flor o que se chama palavra. Esculpir em pétala... imagine só! O que acaba por perfurmar os que ouvem...
Eu decidi que só falarei se eu precisar tanto que, se não o fizer, acabarei por me desfazer em pequenas gotas roxas que mancham o tecido dos surdos. Decidi que quero que saia de mim uma melodia não musical, essa a do colóquio. E só nesse tipo de melodia que se escutem minha voz.
Esses sons límpidos, belos e semânticos... Se eles fizerem alguém chorar que seja para fazer brotar uma lágrima que também veio por necessidade. Uma gota que incha de angústia e de desfaz em alívio, lavando a face e colorindo os olhos de rubro! Ai o rubro... Não temo o choro... eu o amo! Assim como amo o sorriso. Ainda acho o sorriso mais agressivo que a lágrima. O sorriso rasga o semblante, esgarça e comprime tudo... mas é sincero. Só vem quando é preciso e, justamente por ser enfático, é tão decisivo. Liberta.
Eu tomei essa decisão.
Porque é necessário.
Porque falta.
Porque é gelado e eu gosto de coisas que refescam... Porque é fofo como uma pelúcia felpudinha... E por todas essas razões que a razão jamais vai apreender... Só quem vai além dela... Também por necessidade.
Assinar:
Postagens (Atom)