CENA I: pro[ferir]
Tu sabes que às vezes eu acho que quem fala por necessidade, canta? Que se é ela, essa necess[idade] que articula a boca, acaba por esculpir em flor o que se chama palavra. Esculpir em pétala... imagine só! O que acaba por perfurmar os que ouvem...
Eu decidi que só falarei se eu precisar tanto que, se não o fizer, acabarei por me desfazer em pequenas gotas roxas que mancham o tecido dos surdos. Decidi que quero que saia de mim uma melodia não musical, essa a do colóquio. E só nesse tipo de melodia que se escutem minha voz.
Esses sons límpidos, belos e semânticos... Se eles fizerem alguém chorar que seja para fazer brotar uma lágrima que também veio por necessidade. Uma gota que incha de angústia e de desfaz em alívio, lavando a face e colorindo os olhos de rubro! Ai o rubro... Não temo o choro... eu o amo! Assim como amo o sorriso. Ainda acho o sorriso mais agressivo que a lágrima. O sorriso rasga o semblante, esgarça e comprime tudo... mas é sincero. Só vem quando é preciso e, justamente por ser enfático, é tão decisivo. Liberta.
Eu tomei essa decisão.
Porque é necessário.
Porque falta.
Porque é gelado e eu gosto de coisas que refescam... Porque é fofo como uma pelúcia felpudinha... E por todas essas razões que a razão jamais vai apreender... Só quem vai além dela... Também por necessidade.
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