sábado, 26 de junho de 2010

DOS PULSOS DE MOZART

É noite. E o quarto estava escuro, não verei luz escapar por baixo da porta.
Entrei. Abriu-se. Uma vela, somente a luz de uma vela pela metade, ele, uma mesa.

A mesa... sustentava uma chaleira vermelha, arredondada, grande. Estava frio e a chaleira rubra respirava e fazia fumacinhas pela boca. Será que ela brincava? Eu bricava, toda vez que saía manhã a dentro, 2 GRADOS abaixo de zero. Fumacinhas dançantes pela boca e pelo nariz.

Ao lado da chaleira, a cuia. Prata, pequenina mas não o bastante para sumir frente a chaleira. Tinha erva fina e água até a boca. Também ela soltava fumacinha. Deveria estar quente. Meu corpo estava frio... ... senti o gosto de outrora, da nova infância, do pampa gaudério.

A vela logo ali e então, a máquia de escrever que sucumbia aos dedos dele: amigo. Camisa azul... Ele não estava com frio? barba grande... escrevia seu romance. E seus pensamentos pareciam tão afoitos que lhe escapavam pela boca, no seu idioma silhuetoso, vacilante, quase como várias curvas cruzantes de um compasso a girar.

Mirei seu pescoço. Onde estaria ele agora? este meu amigo que olhava para mim como uma irmã? PORQUE? O que foi feito dele, por onde passou aquele cabelo, e aquelas células, o que as modificaram? O que as mataram, o que as fizeram crescer? Por que tipo de ventos sua tez foi cortada? Onde dorme, meu carinhoso e livre amigo? Será que o tempo, essa ave que um dia flecharei, que tipo de marcas fez nessa face amiga, com suas garras?

Olho para o branco da mesa. Espaço vazio. A luz... como comunicá-la... Era a luz em que Beethoven, nas noites frias, escreveu a nona, no auge da sua agonia surda e gélida. O penumbra e a vela. Essa luz exatamente! Eu quase podia ver os pulsos de Mozart com as mangas de babado branco, atravessando a noite cavalgando melodias.
Olho para o lado e ouço..sim, a sinfonia! é da minha cabeça ou algum vizinho escutava?...

Meus olhos se inundam. sinto saudade da chaleira, do mate, do amigo. Temo por ele. QUero todo esse espaço gravado na minha alma. Sinto saudade.

A mesa, a chaleira, o mate e o amigo estão aqui. Sinto saudade do presente que vejo. Meu corpo co-habita com eles. Minha alma está em um não-lugar. Os vejo e me vejo décadas depois... Porque peguei carona nas asas do tempo, nesse segundo de contemplação

Ao meu amigo... deste não lugar em que estou e e um dia encontrará meu corpo que aqui estava... digo que o vejo como uma bandeira que tremula. O chamo liberdade.

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