CENA 1:
''Será esse o caminho
Navegar assim, sozinho,
Sem alguém que nos espere no cais?''
...
... Dei-me conta de que sou eu a mulher com o lencinho branco a dizer adeus. A mesma que retorna todos os dias ao mesmo lugar, cumprimentando os cotidianos pescadores, assistindo o regresso dos grandes navios que chegam abarrotados de gente saudosa ... Mas nunca traz aquele que partiu. São navios devoradores, navios que trazem a angústia terrível da ESPERA e da SAUDADE.
CENA 2:
... ... Também dei-me conta que sou o ser alado que parte com seu navio...Ou melhor, Eu sou o busto posto na proa...Que abre os mares, saúda Poseidon, se aventura no infinito, nas ondas que, por vezes, espelham os céu, as estrelas... Mas quando o navio retorna nào encontro os olhos queridos... Há ninguém. Então eu me dou conta de que pertenço ao navio. As mãos que me afagam sao os ventos.
Eles.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
domingo, 4 de abril de 2010
DIGRESSÕES SOBRE O PERTENCIMENTO
O que é brasileiro? Supõe-se, em princípio, que seja referente ao que provém do brasil. Não obstante, no dicionário Priberam da Lingua Portuguesa consta a seguinte definição:
1 Relativo ou pertencente ao Brasil;.
2. Português que residiu no Brasil e que regressou trazendo mais ou menos haveres.
Pois bem, se considerarmos a primeira definição como parâmetro para definir onde começa o teatro brasileiro, pensa-se: a cultura de um país na boca de um estrangeiro permanece enquanto cultura do país de origem? Ou seja, o colonizador português, quando fala da cultura da colônia, o produto ainda pertence à primeira? Obviamente que entre o que o Brasil apresenta dentro de si e o que se vê fora dele, existe espaço para interpretações próprias e, portanto distanciamentos. Contudo, se pensarmos que a caracteristica de SER depende do que a coisa diz de si, do que ela faz e do que dizem dela, inferimos que pertence ao Brasil o que ele faz (sua história fática), o que ele diz dele mesmo (a prática cultural), e o que outros, de fora, interpretam dele. Desta forma, a produção dramática feita pelos portugueses que abarca, de algum modo, algo sobre o Brasil, desde povos nativos, língua, práticas culturais, diz respeito a esse país.
É comum, ao principiarmos o estudo do Teatro Brasileiro, considerarmos a produção de Gil Vicente. Ora, esse foi um grande dramaturgo português, de um certo idealismo romântico, que falou das problemáticas de uma cultura portuguesa que ia se perdendo. Fala do que pertence à Potugal. E o Brasil? Há algo em sua produção que é inerente a nossa cultura? Tudo o que é escrito em língua portuguesa, em certa instância, diz respeito aos falantes da mesma, ou seja, brasileiros e potugueses. É claro que se deve considerar que, no período vicentino, o Galego dava a forma a nossa lingua, ou seja, o português não possuia a atual forma gramática. Contudo, desconsiderar essa produção de origem da língua que falamos não tem sentido, uma vez que seria negar uma parcela das referências da constinutição do que somos hoje.
Curioso é pensar na segunda definição dada pelo dicionário: brasileiro é português que residiu no Brasil e que regressou trazendo mais ou menos haveres. Pederíamos interpretar da forma que é brasileiro o português (ou o que provém de Portugal) que fez parte do Brasil e regressou a sua terra de origem levando coisas sobre o brasil. Isso, de uma certa forma, remete à produção dramática de Pe. José de Anchieta. Ele não tinha pretenções de uma produção dramática, embora admirasse o teatro. Também ele era provieniente de Terras Lusas, não obstante suas peças foram criadas para os nativos desta terra, apresenta a língua tupi e o português e, não há dúvida, de que a obra de Anchieta, apesar de não nascer da voz de alguém com ´´tambor na alma``, fala sobre e diz muito respeito à história e a cultura brasileira. Era a pretenção de um Teatro tímido que se produziu aqui, ou pelo menos para o povo daqui. Obviamente, sem contar o teatro marginal e laico dos colonos e muitas outras práticas esporádicas que almejavam o lugar de onde se vê.
Nos séculos XVII e XVIII já teremos a construção de um edifício teatral, nos moldes clássicos onde eram representados obras européias como Molière. Muitos questionam e até afirmam que esse tipo de prática nada tem a ver com o Brasil, mas é simplesmente a importação de um modelo que não dialoga. Mas o que somos nós, se não um amontoado de coisas injetadas de todos os lugares, uma miscelânia de coisas (muitas) que não nos diziam respeito mas que, a partir do momento que chegavam a nós, foram fagocitadas e trasformadas em uma terceira. Eis o cerne da questão: o teatro brasileiro não é genuíno, mas é dialético. Ele não é o português, não é o índio, é uma terceira coisa que é a primeira e a segunda ao mesmo tempo. E nessa terceira coisa também há espaço para coisas que não são nem a primera nem a segunda. Podemos sim considerar como teatro brasileiro o teatro importado para cá e o que foi produzido aqui, pois o Brasileiro genuíno estará no ENTRE as duas coisas.
´´Brasil, pra mim! Abre a cortina do passado
Tira a mãe preta do cerrado
Bota o rei congo no congado
O brasileiro é do choro
é entusiasmado quando cai no samba
No Amazonas, no araguaia iá
Na baixada Fluminense
Mato Grosso, nas Gerais e no Nordeste,
Pelo prazer de chorar e pelo ´´estamos aí``
Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir
Um crime pra comentar e um samba pra distraír
DEUS LHE PAGUE!
Não fica abafado e é um desacato
As selvas te deram nas noites teus rítmos bárbaros
E os negros trouxeram de noite reservas de pranto
E os brancos falavam de amor nas suas canções
E dessa mistura de vozes nasceu o teu canto``
Sim, brasileiro é a mãe preta, o branco romântico, o Molière no cerrado, os bárbaros tambores, uma fumaça desgraça, um cálice, um teatro de Gil, Anchieta, Gonçalves de Magalhães, teatro do barulho, do proibido dizer, teatro dos atores mudos, das cantilenas alquebradas, drama das paulicéias, teatro do nada, teatro da ostentação, teatro do papel verde e da moeda enferrujada, do pouco, teatro dos becos e das cortes, teatro do grave, do pessimismo, da alegria paleativa, também da alegria sincera, teatro do que foi e não é mais, teatro do que é que já foi um dia, teatro da Maria, do Zé, de Castro, da Pena do Martins, de Plínio, do ontem e o amanhã... É um grande lugar de onde se vê.
1 Relativo ou pertencente ao Brasil;.
2. Português que residiu no Brasil e que regressou trazendo mais ou menos haveres.
Pois bem, se considerarmos a primeira definição como parâmetro para definir onde começa o teatro brasileiro, pensa-se: a cultura de um país na boca de um estrangeiro permanece enquanto cultura do país de origem? Ou seja, o colonizador português, quando fala da cultura da colônia, o produto ainda pertence à primeira? Obviamente que entre o que o Brasil apresenta dentro de si e o que se vê fora dele, existe espaço para interpretações próprias e, portanto distanciamentos. Contudo, se pensarmos que a caracteristica de SER depende do que a coisa diz de si, do que ela faz e do que dizem dela, inferimos que pertence ao Brasil o que ele faz (sua história fática), o que ele diz dele mesmo (a prática cultural), e o que outros, de fora, interpretam dele. Desta forma, a produção dramática feita pelos portugueses que abarca, de algum modo, algo sobre o Brasil, desde povos nativos, língua, práticas culturais, diz respeito a esse país.
É comum, ao principiarmos o estudo do Teatro Brasileiro, considerarmos a produção de Gil Vicente. Ora, esse foi um grande dramaturgo português, de um certo idealismo romântico, que falou das problemáticas de uma cultura portuguesa que ia se perdendo. Fala do que pertence à Potugal. E o Brasil? Há algo em sua produção que é inerente a nossa cultura? Tudo o que é escrito em língua portuguesa, em certa instância, diz respeito aos falantes da mesma, ou seja, brasileiros e potugueses. É claro que se deve considerar que, no período vicentino, o Galego dava a forma a nossa lingua, ou seja, o português não possuia a atual forma gramática. Contudo, desconsiderar essa produção de origem da língua que falamos não tem sentido, uma vez que seria negar uma parcela das referências da constinutição do que somos hoje.
Curioso é pensar na segunda definição dada pelo dicionário: brasileiro é português que residiu no Brasil e que regressou trazendo mais ou menos haveres. Pederíamos interpretar da forma que é brasileiro o português (ou o que provém de Portugal) que fez parte do Brasil e regressou a sua terra de origem levando coisas sobre o brasil. Isso, de uma certa forma, remete à produção dramática de Pe. José de Anchieta. Ele não tinha pretenções de uma produção dramática, embora admirasse o teatro. Também ele era provieniente de Terras Lusas, não obstante suas peças foram criadas para os nativos desta terra, apresenta a língua tupi e o português e, não há dúvida, de que a obra de Anchieta, apesar de não nascer da voz de alguém com ´´tambor na alma``, fala sobre e diz muito respeito à história e a cultura brasileira. Era a pretenção de um Teatro tímido que se produziu aqui, ou pelo menos para o povo daqui. Obviamente, sem contar o teatro marginal e laico dos colonos e muitas outras práticas esporádicas que almejavam o lugar de onde se vê.
Nos séculos XVII e XVIII já teremos a construção de um edifício teatral, nos moldes clássicos onde eram representados obras européias como Molière. Muitos questionam e até afirmam que esse tipo de prática nada tem a ver com o Brasil, mas é simplesmente a importação de um modelo que não dialoga. Mas o que somos nós, se não um amontoado de coisas injetadas de todos os lugares, uma miscelânia de coisas (muitas) que não nos diziam respeito mas que, a partir do momento que chegavam a nós, foram fagocitadas e trasformadas em uma terceira. Eis o cerne da questão: o teatro brasileiro não é genuíno, mas é dialético. Ele não é o português, não é o índio, é uma terceira coisa que é a primeira e a segunda ao mesmo tempo. E nessa terceira coisa também há espaço para coisas que não são nem a primera nem a segunda. Podemos sim considerar como teatro brasileiro o teatro importado para cá e o que foi produzido aqui, pois o Brasileiro genuíno estará no ENTRE as duas coisas.
´´Brasil, pra mim! Abre a cortina do passado
Tira a mãe preta do cerrado
Bota o rei congo no congado
O brasileiro é do choro
é entusiasmado quando cai no samba
No Amazonas, no araguaia iá
Na baixada Fluminense
Mato Grosso, nas Gerais e no Nordeste,
Pelo prazer de chorar e pelo ´´estamos aí``
Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir
Um crime pra comentar e um samba pra distraír
DEUS LHE PAGUE!
Não fica abafado e é um desacato
As selvas te deram nas noites teus rítmos bárbaros
E os negros trouxeram de noite reservas de pranto
E os brancos falavam de amor nas suas canções
E dessa mistura de vozes nasceu o teu canto``
Sim, brasileiro é a mãe preta, o branco romântico, o Molière no cerrado, os bárbaros tambores, uma fumaça desgraça, um cálice, um teatro de Gil, Anchieta, Gonçalves de Magalhães, teatro do barulho, do proibido dizer, teatro dos atores mudos, das cantilenas alquebradas, drama das paulicéias, teatro do nada, teatro da ostentação, teatro do papel verde e da moeda enferrujada, do pouco, teatro dos becos e das cortes, teatro do grave, do pessimismo, da alegria paleativa, também da alegria sincera, teatro do que foi e não é mais, teatro do que é que já foi um dia, teatro da Maria, do Zé, de Castro, da Pena do Martins, de Plínio, do ontem e o amanhã... É um grande lugar de onde se vê.
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